1562 – O Triunfo Português no Grande Cerco a Mazagão

Em Maio de 2012 assinala-se os 450 anos de uma das maiores vitórias militares da História de Portugal: o triunfo luso no grande cerco a Mazagão de 1562. Com efeito, já desde 1559 que o xerife de Marrocos, Mulay Abdallah, vinha a desenvolver o projecto de apoderar-se desta praça portuguesa que apontava para Marraquexe.

A fortaleza de Mazagão não só estava isolada em território marroquino depois do abandono de Azamor, Safim e Aguz, como também sofria a pressão dos xerifes sádidas, membros da nova dinastia marroquina. E, desde modo, os grandes preparativos foram sendo feitos durante os anos de 1560 e 1561, com o objectivo de acabar com este enclave português cuja presença era um insulto ao crescente islâmico.

Em 1561, o sultão Mulay Abdallah decidiu comprar armamento e formar um numeroso exército, confiando o comando das tropas ao seu filho, o futuro Xerife Mulay Mohamed Almotauaquil. Apelando a toda a Mauritânia, reuniu em Marraquexe um poderoso exército de 120.000 homens, entre os quais se contavam 37.000 cavaleiros e 13.500 sapadores, apoiados por 24 peças de artilharia.

O capitão de Mazagão, Ruy Sousa de Carvalho, desconfiado com os boatos que se ouviam, mandou a Fez um espião que veio a confirmar as suas suspeitas: o sultão Mulay Abdallah preparava-se efectivamente para cercar a fortaleza.

Tal como podemos acompanhar pela Crónica dos Acontecimentos Militares, em 28 de Fevereiro de 1562, foi o alcaide de Azamor com muitos homens a pé e a cavalo assentar tendas a menos de meia légua da fortaleza. Mandou então um alfaqueque ao capitão Ruy de Sousa de Carvalho, anunciando-lhe que o filho do sultão vinha cercar a praça, pelo que o capitão retorquiu-lhe: “que viese muito em boa hora que aqui o estava esperando nesta fortaleza com muitos marmelos e peros e romãs e outras frutas desta qualidade da qual não havia falta nesta fortaleza”. Pediu o capitão à regente D. Catarina reforços e abastecimentos necessários para aguentar o cerco, pois os 2.600 habitantes de Mazagão não poderiam opôr-se sozinhos ao numeroso exército de Mulay Abdallah.

Já há algum tempo que se sabia que a regente planeava o abandono de Mazagão, mesmo contra o sentimento nacional. Talvez por isso as notícias recebidas provocaram no país uma mobilização geral para defender a praça e impedir o seu abandono.

Logo que a embarcação portadora da notícia chegou ao Algarve, levantou-se uma onda de patriotismo que correu todo o reino. Em Lisboa, nobres e populares fizeram avultados esforços para ir em socorro de Mazagão. No Algarve, muitos tomaram a iniciativa de responder aos apelos do capitão daquela praça do Algarve Dalém-Mar, mesmo antes da intervenção de D. Catarina. Algumas câmaras algarvias chegaram mesmo a custear a viagem a voluntários. De Tavira, por exemplo, foram enviados voluntários em barcos fornecidos pelos próprios habitantes.

A verdade é que o cerco do sultão Mulay Abdallah foi providencial para Mazagão, pois apesar do abandono estar concebido para aquele mesmo ano, a sociedade portuguesa considerava intolerável a ideia de a praça ser conquistada pelo mouro infiel.

Juntaram-se, portanto, para além dos motivos religiosos, as razões de honra e de brio militar. Ao todo, foram enviados 20.000 homens armados. Em 24 de Março chegou à praça o capitão Álvaro de Carvalho com uma armada na qual iam muitos cavaleiros, entre os quais 600 fidalgos que haviam obtido autorização da regente para partir de Lisboa em auxílio dos seus irmãos de armas. Mas ainda assim o combate parecia desproporcionado.

Como poderia a fortaleza resistir a semelhante assédio? Foi desta forma que começou o grande cerco e se inaugurou a lenda de Mazagão. Os socorros chegaram antes de os mouros lançarem os ataques decisivos e, os portugueses, reorganizados, opuseram uma resistência determinada.

Começou então a dissipar-se o vigor dos soldados mouros, assustados com o grande número de mortos nas suas fileiras. Finalmente, a 7 de Maio, quando o filho do sultão decidiu levantar o cerco, já teriam morrido ”mais de vinte e cinco mil mouros e cento e dezassete portugueses”, para além dos 270 feridos do lado português.

Grosso modo, a engenharia militar da moderna cidadela suportou quase três meses de cerco, provando estar preparada para resistir aos assédios dos mouros. Mazagão foi nessa época o orgulho de Portugal numa altura em que a Coroa, após ter abandonado outras praças, precisava de todas as oportunidades para afirmar a presença militar portuguesa no Algarve Dalém Mar.

Por esses anos, já o império português agonizava numa profunda crise económica sem precedentes, apesar do pedante luxo em que vivia a Côrte (qualquer semelhança com a actualidade será pura coincidência?). Resta-nos, portanto, o exemplo destes nossos valorosos antepassados face aos desafios que então se punham, para servir de motivação aos sacrifícios que hoje nos são impostos.

Fernando Pessanha
(Mestrando em História do Algarve – CEPHA / UALG)

 

 

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